Como prevenir a propagação do coronavírus em ambientes fechados

Professora de engenharia mecânica dá dicas para melhorar a ventilação em casas e empresas em tempos de Covid-19

A maior parte da transmissão do SARS-CoV-2 ocorre em ambientes fechados; por isso, é importante manter espaços fechados bem ventilados (Foto: CDC / Unsplash)

A maior parte da transmissão do SARS-CoV-2 ocorre em ambientes fechados; principalmente pela inalação de partículas transportadas pelo ar que contêm o coronavírus. A melhor maneira de evitar que o vírus se espalhe em uma casa ou empresa seria simplesmente manter as pessoas infectadas afastadas. Mas é difícil de fazer isso quando cerca de 40% dos casos são assintomáticos e quando as pessoas assintomáticas ainda podem transmitir o coronavírus para outras pessoas.

As máscaras fazem um trabalho decente em impedir que o vírus se espalhe para o ambiente; mas se uma pessoa infectada estiver dentro de um prédio, inevitavelmente, algum vírus escapará para o ar.

Sou professora de engenharia mecânica na Universidade de Colorado em Boulder [Estados Unidos]. Grande parte do meu trabalho se concentrou em como controlar a transmissão de doenças infecciosas transmitidas pelo ar em ambientes fechados, e a minha própria universidade, as escolas de meus filhos e até mesmo a Legislatura do Estado do Alasca já me pediram conselhos sobre como fazer espaços fechados ficarem mais seguros durante esta pandemia.

Quando o vírus escapa para o ar dentro de um prédio, você tem duas opções: trazer ar fresco do lado de fora ou remover o vírus do ar que está dentro do prédio.https://tpc.googlesyndication.com/safeframe/1-0-37/html/container.html

É tudo uma questão de ar fresco de fora

O espaço fechado mais seguro é aquele que tem muito ar do exterior entrando constantemente para substituir o ar velho do interior.

Em edifícios comerciais, o ar externo geralmente é trazido para dentro por meio de sistemas de aquecimento, ventilação e ar-condicionado. Nas casas, o ar externo entra pelas janelas e portas abertas, além de se infiltrar por vários cantos e fendas.

Para simplificar: quanto mais fresco for o ar externo de um edifício, melhor. Trazer esse ar dilui qualquer agente contaminante no ambiente, seja um vírus ou outro tipo, e reduz a exposição das pessoas que estão dentro do espaço. Engenheiros como eu têm como função quantificar quanto ar externo entra em um prédio usando um parâmetro chamado de taxa de troca de ar. Esse número quantifica o número de vezes que o ar de dentro de um prédio é substituído pelo ar de fora no período de uma hora.

Embora a taxa exata dependa do número de pessoas e do tamanho da sala, a maioria dos especialistas considera que é adequado haver aproximadamente seis mudanças de ar por hora em uma sala de 3m² com três ou quatro pessoas dentro. Durante uma pandemia, essa taxa deve ser mais alta, conforme um estudo de 2016 que sugeriu que uma taxa de nove trocas de ar por hora foi capaz de reduzir a transmissão de Sars, Mers e H1N1 em um hospital de Hong Kong.

Muitos edifícios nos Estados Unidos, especialmente escolas, não têm as taxas de ventilação recomendadas. Mas, felizmente, é relativamente fácil conseguir que mais ar externo entre em um prédio. Manter janelas e portas abertas é um bom começo. Colocar um ventilador na janela pode aumentar a troca de ar também. Em prédios que não têm janelas funcionais, você pode mudar o sistema de ventilação mecânica para aumentar a quantidade de ar bombeado. Mas, em qualquer ambiente, quanto mais pessoas, mais rápido o ar deve ser substituído.

Quanto mais pessoas compartilharem um mesmo ambiente, mais rápido o ar deve ser substituído nesse espaço (Foto: Sarah Kilian / Unsplash)
Quanto mais pessoas compartilharem um mesmo ambiente, mais rápido o ar deve ser substituído nesse espaço (Foto: Sarah Kilian / Unsplash)

Usando gás carbônico para medir a circulação de ar

Então como você sabe se o ambiente em que você está troca de ar o bastante? Na verdade, esse é um número bastante difícil de calcular. Porém, existe um atalho fácil de se medir e que pode ajudar. Toda vez que você expira, você libera gás carbônico (CO2) no ar. Como o coronavírus é majoritariamente disseminado pela respiração, pela fala ou pela tosse, podemos usar os níveis de CO2 para medir se o ambiente está sendo preenchido por exalações potencialmente infecciosas. Os níveis de CO2 permitem estimar se há uma quantidade suficiente de ar fresco entrando no espaço.

Em ambientes externos, os níveis de CO2 são, em média, de 400 partes por milhão (ppm). Um ambiente bem ventilado terá aproximadamente 800 ppm de CO2. Um número maior do que esse indica que o ambiente precisa de mais ventilação.

Em 2019, pesquisadores de Taiwan reportaram os efeitos da ventilação em um surto de tuberculose na Universidade de Taipei. Muitas das salas da universidade eram subventiladas e tinham níveis de CO2 acima de 3 mil ppm. Quando engenheiros melhoraram a circulação do ar e reduziram os níveis de CO2 para menos de 600 ppm, o surto foi contido. De acordo com a pesquisa, o aumento de ventilação foi responsável por 97% da diminuição da transmissão.

Como o coronavírus é transmitido pelo ar, níveis mais altos de CO2 em um ambiente podem significar que há uma chance maior de ocorrer transmissão se uma pessoa infectada está presente. Baseado no estudo citado acima, recomendo tentar manter os níveis de CO2 abaixo de 600 ppm. É possível comprar bons medidores de CO2 por cerca de 100 dólares na internet – mas é importante se certificar de que eles têm uma margem de erro menor do que 50 ppm.

SARS-CoV-2, também conhecido como 2019-nCoV (Foto: NIAID-RML)
SARS-CoV-2, também conhecido como 2019-nCoV (Foto: NIAID-RML)

Purificadores de ar

Se você está em um ambiente sem ar externo suficiente para diluir os agentes transmissores, considere obter um purificador de ar. Essas máquinas removem partículas do ar, normalmente usando um filtro feito de fibras de tecido. Elas podem capturar partículas que contêm bactérias e vírus, e ajudar a reduzir a transmissão de doenças.

A Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos diz que purificadores de ar podem ter esse efeito em relação ao coronavírus, mas nem todos os purificadores são iguais. Antes de você sair para comprar um, há algumas coisas que deve ter em mente.

A primeira que você deve considerar é quão eficaz é o filtro de um purificador de ar. Sua melhor opção é um purificador que use um filtro de ar de alta eficiência [HEPA, na sigla em inglês], uma vez que eles removem mais de 99,97% de partículas de todos os tamanhos.

A segunda coisa a se considerar é quão potente o purificador é. Quanto maior o espaço – ou quanto mais pessoas estiverem presentes nele – mais ar precisa ser purificado. Trabalhei com alguns colegas em Harvard para desenvolver uma ferramenta que ajuda professores e escolas a determinar qual a potência exigida de um purificador de ar para diferentes tamanhos de salas de aula.

E a última coisa a se considerar é a validade das garantias feitas pela empresa que produz o purificador de ar.

A Associação de Produtores de Eletrodomésticos [AHAM, na sigla em inglês] nos Estados Unidos certifica os purificadores de ar, então um selo de aprovação da AHAM é um bom começo. Além disso, o Conselho de Recursos Aéreos da Califórnia tem uma lista de purificadores de ar que são certificados como seguros e eficazes, embora nem todos eles usem filtros HEPA.

SARS-CoV-2, o novo coronavírus, responsável por causar a Covid-19 (Foto: Scientific Animations/Wikimedia Commons)
SARS-CoV-2, o novo coronavírus, responsável por causar a Covid-19 (Foto: Scientific Animations/Wikimedia Commons)

Mantenha o ar fresco ou fique ao ar livre

Tanto a Organização Mundial da Saúde (OMS) quanto o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC) afirmam que a má ventilação aumenta o risco de transmissão do coronavírus.

Se você tem o controle de um local fechado, certifique-se que há uma circulação de ar fresco suficiente dentro do ambiente. Um medidor de CO2 pode ajudar a dizer se há ventilação o bastante. E se os níveis de CO2 começarem a subir, abra algumas janelas e faça uma pausa ao ar livre. Se não for possível trazer ar fresco suficiente para um espaço, um purificador pode ser uma boa ideia. Mas lembre-se que purificadores não removem CO2; então mesmo que o ar esteja mais seguro, os níveis de CO2 ainda podem estar altos.

Se você entrar em um ambiente e sentir que ele está quente, abafado e lotado, provavelmente a ventilação é insuficiente. Vire as costas e vá embora.

Ao prestar atenção à circulação e purificação de ar, melhorando-as quando possível e ficando longe de locais que não sejam seguros, podemos adicionar mais uma ferramenta poderosa ao nosso kit anticoronavírus.

*Professora de Engenharia Mecânica da Universidade do Colorado em Boulder. Texto originalmente publicado no The Conversation.

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