CORONAVÍRUS: Idosos contrariam medidas de isolamento durante pandemia e chegam a fugir de casa

agitados.

Comportamento, de acordo com geriatra, é por causa da falta de informação e da confusão que se faz de isolamento físico com abandono

RIO – Em 19 anos de serviço no icônico Edifício Master — condomínio em Copacabana que foi imortalizado no documentário homônimo de Eduardo Coutinho — o porteiro Paulo Romão, de 49 anos, nunca havia passado por uma situação parecida com a que enfrentou na semana passada: uma senhora de cerca de 80 anos o ludibriou para sair do prédio sem que ele estivesse vendo e em meio às medidas de contenção durante esta pandemia do novo coronavírus. Como à senhora sabia que o porteiro estava restringindo a aglomeração de pessoas e a saída dos idosos do prédio para a rua a não ser em caso de emergência, ela resolveu sair escondida.

— A Dona Maria é fogo. Normalmente ela é tranquila, mas ultimamente ela tem ficado nervosa e, desta vez, me pegou. Tem outro senhor aqui, que também fica entrando e saindo toda hora. Já alertei, mas não adianta — disse Paulo.

Essa desobediência específica dos que chegaram à terceira idade têm sido cada vez mais registrada nas grandes cidades e, no Rio — principalmente, em bairros que concentram mais idosos como Copacabana e Flamengo — também não poderia ser diferente. Na semana passada, o gerente de bar João Ximenes, de 74 anos, foi um dos que deram uma “escapadinha” de casa em meio às recomendações de isolamento. Ele caminhava pela Rua Riachuelo, na Lapa, após uma visita ao supermercado que fica a poucos metros do endereço onde mora.

— Saí escondido da minha filha —  admitiu, antes de dizer o motivo pelo qual tinha ido ao local. — Queria ver se tinha álcool gel para vender. Toda hora fica passando na TV que devemos usar álcool gel, mas a gente não acha para comprar. Mais uma vez, não encontrei o produto.

Às vezes, a escapada toma um rumo mais literal. No drive-thru para a vacinação no Detran do Catete, uma moradora do Largo do Machado que prefere não se identificar deve que ir atrás da mãe, de 94 anos, que, ao descobrir que a filha a levaria no dia seguinte para receber a vacina de gripe, se rebelou e fugiu para um supermercado próximo de casa.

— Achei a mamãe andando entre os corredores sem comprar nada, que nem criança — disse ela, com expressão de reprovação, para a sua mãe com a cara emburrada sentada ao seu lado no carro.

Na Barra, bairro que concentra o maior número de casos de Covid-19 da cidade, a analista de marketing Cynthia Torres está “cortando um dobrado” para fazer o seu pai, de 62 anos, parar de sair de casa por motivos fúteis.

— Até minha filha, que só tem 5 anos, está ensinando a ele que é perigoso. É pior porque ele é “recém idoso” — brinca a filha. — Meu avô está em São Paulo agora e nos liga todo dia agoniado porque ninguém deixa ele sair.

A carioca Aline Lemos também relatou, no twitter, que está sem saber o que fazer com o seu pai:

— Ele não para quieto. Toda hora ele foge! Hoje, ele chegou ao cúmulo de catar telhas velhas no lixo com um carrinho dizendo que podemos precisar em alguma hora. Só Deus na causa.

Em Jacarepaguá, um artista plástico que prefere não se identificar preferiu tomar uma medida drástica: percebendo a insistência da mãe idosa em sair de casa, preparou uma imagem que dizia que, caso ela saísse de casa, o governo federal iria suspender a sua aposentadoria. A intenção era só manter os seus pais em casa, mas a mensagem falsa acabou sendo divulgada por ela, caindo nas redes e sendo desmentida, inclusive, pelo Governo.

— Quando surgiram os primeiros relatos sobre o Covid-19, eu comecei a alertar meus pais por serem idosos e morarem sozinhos e distantes de mim. A primeira reação da minha mãe foi que ela não tinha medo, não deixaria de fazer suas coisas e que isso não chegaria neles — relembra o artista. — Com muita insistência, eu comecei a ligar todos os dias e a próxima resposta que tive foi que meu pai continuava indo ao mercado para “mostrar que não é um inválido” e que não deixaria de ir aos cultos da igreja. A minha última opção era enganá-los, mas, como? Daí veio a ideia de criar uma “fake news do bem” para mantê-los em casa.

 ‘É importante passar a bola da responsabilidade também para eles’, diz médica geriatra

Mas realmente há a necessidade de se tomar medidas tão extremas contra a teimosia dos mais velhos em sair de casa? De acordo com a geriatra e psiquiatra Roberta França, essa rebeldia aumentou porque tudo mudou de uma maneira muito rápida para os idosos. Assim, eles não foram capazes de assimilar a quantidade de informações que chegaram há três semanas.

— São dois contextos. O primeiro é a mudança de paradigma que precisamos ter em um intervalo muito curto de tempo. Há uma semana, o nosso discurso para o idoso era “saia de casa, socialize, faça novos amigos, crie uma rede de apoio, faça hidromassagem, terapia, preencha seu tempo, não se isole…” Agora, em menos de três semanas, mudamos esse discurso radicalmente e muitos não conseguiram entender como é que, o que era bom antes, deixou de seragora — explica a médica.

Para a geriatra, uma das formas de se conscientizar melhor os idosos, principalmente os de idade avançada, é dizer que o distanciamento físico não significa abandonar, mas que, na verdade, também é uma forma de carinho, inclusive, deles com os que o cercam.

— É importante passar a bola da responsabilidade também para eles falando que a gente também depende deles para ficar saudáveis. Quando você vira e fala apenas “não faça”, eles acabam fazendo e dizendo “você não manda em mim, eu tenho autonomia, sou muito mais velho…”. Algo que tem dado certo é dizer: quando você sai na rua, você está deixando de se cuidar e piorando a saúde de quem?

Roberta também aconselha que o trato com os idosos demenciados seja diferenciado, mas não menos carinhoso. Assim, a médica indica que o importante é que a pessoa responsável pelo idoso procure se permanecer centrada e controlar a ansiedade:

— É todo um trabalho de escuta e paciência, pois esses são pacientes que tendem a fugir mais porque o entendimento da situação fica muito comprometido. Eles, geralmente, acham que estão sendo mantido prisioneiros e não têm capacidade cognitiva plena para entender isso. Com esses, o diálogo não ajuda muito, então, é manter a casa mais vigiada e fazer contato com o médico do paciente para que a medicação seja revista e ele fique mais tranquilo, porque a tendência é eles ficarem mais agressivos e agitados.

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