Em Manaus, pico de mortes por Covid-19 leva moradores ao desespero

Com oxigênio em falta e sistema hospitalizar sobrecarregado, Amazonas vive a pior crise sanitária de sua História

Funcionário da secretaria de Saúde de Manaus faz exame de Covid-19 no corpo de um homem de 43 anos que morreu em casa, anteontem: “Não é todo mundo que é acostumado a fazer essa operação de guerra”, diz médica que atua no Samu Foto: RAPHAEL ALVES / Agência O Globo

 No início do mês, a psicóloga Julieta Rolim, 51, encerrou o expediente e voltou para casa. Tinha passado o dia inteiro atendendo familiares de pacientes com Covid-19 no Hospital 28 de Agosto, um dos maiores de Manaus. O silêncio chegou ao quarto, e a adrenalina baixou. Julieta, então, começou a lembrar do atendimento que havia feito horas antes. Era uma mulher que tinha perdido a mãe e o pai para a doença. O filho, contaminado, estava entubado na UTI. Quando se deu conta, Julieta chorava.

— Quando eu cheguei em casa, vieram os pensamentos. Podia ser minha mãe, podia ser meu pai, podia ser um filho. Acabei desabando — contou a psicóloga

O relato de Julieta é, em alguma medida, o reflexo do impacto que o segundo pico da Covid-19 está tendo na cidade. Percorrendo as ruas de Manaus, é possível perceber que a leveza e o bom humor quase sempre presentes nas conversas com a população deram lugar a uma mistura de tensão, medo e desalento. É como se a cidade estivesse em choque diante das imagens de pessoas disputando um cilindro de oxigênio no meio da rua.

Julieta Rolim, 51 anos, psicóloga dá assistências aos familiares de pacientes que buscam informação no Hospital 28 de Agosto, em Manaus Foto: Juliana Pesqueira / Agência O Globo
Julieta Rolim, 51 anos, psicóloga dá assistências aos familiares de pacientes que buscam informação no Hospital 28 de Agosto, em Manaus Foto: Juliana Pesqueira / Agência O Globo

O Amazonas vive a maior crise sanitária de sua história, segundo o governo do estado, que registrou 229.367 casos da doença e 6.123 mortes até a noite de sábado. No primeiro pico da Covid-19, entre abril e maio do ano passado, o sistema de saúde local foi à lona. Com o passar dos meses, porém, o pior parecia ter ficado para trás. Medidas de isolamento social foram relaxadas, o comércio, festas e confraternizações voltaram a pleno vapor. Na última semana, no entanto, a ilusão de aparente normalidade ruiu.

O número de casos da doença subiu e puxou à estratosfera a quantidade de internações. Durante a semana, houve picos de 258 hospitalizações por Covid-19 em 24 horas. Em poucos dias, o consumo diário de oxigênio hospitalar saiu de 15 mil m³ 76 mil m³. Sem planejamento, o oxigênio acabou. Na sexta-feira, o número de enterros em um único dia em Manaus bateu recorde: 213. Como resposta, o governo estadual decretou toque de recolher, e o Ministério da Saúde anunciou a transferência de pacientes para outros estados.

— A população está amedrontada. A minha mãe está escondida no quarto e não consegue sair. Todo mundo está assustado. É um negócio anormal. Falta de esperança total — disse o administrador Eric Tinoco, minutos depois de conseguir um leito para o primo de 42 anos diagnosticado com Covid-19.

Abalo psicológico

Mas por que o abalo psicológico causado pelo segundo pico da Covid-19 seria, de alguma forma, maior que o causado pelo primeiro? Jesem Orellana é pesquisador da Fiocruz-Amazônia, um laboratório ligado à Fundação Oswaldo Cruz em Manaus. Ele foi um dos primeiros a alertar as autoridades locais sobre a possibilidade de um novo pico de Covid-19. Para ele, a resposta a essa pergunta é simples: o baque causado pelo novo caos causado pela doença é proporcional à sensação de que a epidemia caminhava para o fim.

— Tinha uma falsa sensação de bem-estar no ar. Havia alguns médicos, autoridades e políticos afirmando que estava tudo sob controle. Quando despertamos desse transe, olhamos a realidade, e ela era trágica — disse o pesquisador.

A psicóloga Julieta Rolim tem um entendimento semelhante ao de Orellana.

— Havia esse excesso de confiança de que você não ia pegar ou, que se pegasse, não ia morrer. Essa autoconfiança acabou gerando essa situação — afirmou.

Parte dessa sensação se manifestou no final de dezembro, quando um grupo de empresários pressionou o governador Wilson Lima (PSC) a revogar um decreto que restringia medidas de isolamento social que afetavam o comércio. Lima flexibilizou as regras, e houve comemoração nas ruas e nas redes sociais. Mesmo após o aumento de casos da doença, o governador negou, em entrevista ao GLOBO, ter se arrependido do recuo.

— Não tem como tomar uma decisão levando em consideração apenas os dados. Era preciso, também, escutar a voz das ruas — disse.

A escolha por quem vive

Médicos que estão na linha de frente relatam desespero e desesperança ao sentir que, diante das circunstâncias, têm pouco a fazer para ajudar seus pacientes.

Na semana passada, a médica Taysa Abrahim, que atua no Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) de Manaus, disse que muitos de seus colegas estão adoecendo ao lidar com situações típicas de uma guerra.

 Não é todo mundo que está acostumado a fazer essa operação de guerra. Quando eu tenho dois pacientes e só um equipamento de oxigênio, tenho que revezar ou priorizar quem tem mais chance de viver. Muitos colegas tiveram que fazer essa escolha e estão adoecendo — desabafou.

Médica Taysa Litaiff Isper Abrahim, que atua no Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) de Manaus Foto: Euzivaldo Queiroz / Agência O Globo
Médica Taysa Litaiff Isper Abrahim, que atua no Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) de Manaus Foto: Euzivaldo Queiroz / Agência O Globo

A médica Monique Santana trabalha no serviço de verificação de óbito domiciliar, que atua quando um paciente morre dentro de casa. Ela concorda que o impacto desse segundo pico na população vem sendo maior do que o do primeiro. Ela, no entanto, tem dúvidas de que a população e o governo tirem alguma lição da tragédia dos últimos dias.

— A população está impactada, sim. Somos notícia mundial de novo. Mas eu tenho poucas esperanças de que isso vai resultar numa mudança de comportamento. Somos o mesmo povo que, em abril, estava chocado com as valas coletivas e, três meses depois, estava fazendo festa de casamento — disse.

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