Tecido que “mata” coronavírus funciona? Entenda a tecnologia

Máscara e luva com tecido anticovid da Becauz

A máscara já virou parte do nosso vestuário pós-covid há meses, mas a indústria têxtil já está na próxima fase: roupas que prometem nos proteger de diversas bactérias e até o novo coronavírus. Esses novos materiais também já servem para revestir veículos e locais públicos; há testes do tipo com os ônibus do transporte público de São Paulo. Mas não corra ainda para trocar todo o seu guarda-roupa. Apesar de ser uma boa notícia, especialistas consultados por Tilt sugerem cautela sobre a eficácia desse tipo de tecido.

Há diferenças nos materiais usados por cada fabricante, mas todos eles usam a mesma lógica: colocam na estrutura do tecido materiais capazes de destruir as camadas protetoras do coronavírus, da mesma forma que o sabão ou álcool em gel. Ainda assim, servem só para proteção individual, e não para esterilizar ambientes contaminados.

Um exemplo adotado por várias grifes é o fio de poliamida Amni Virus-Bac OFF, da Rhodia. Ele promete neutralizar diversas bactérias e vírus, inclusive os envelopados, como os da Covid-19, Sars, Mers, influenza e herpes.

O agente antiviral do tecido é composto por diversas substâncias, incluindo íons de prata —metal com propriedades antibacterianas. Ele causa uma afinidade eletrônica (um tipo de fenômeno físico-químico) que rompe o envelope de gordura do vírus e neutraliza suas regiões externas de proteína (as “coroas” que ancoram nas células humanas).

O diferencial do produto seria conter as substâncias antivirais dentro da própria fibra do tecido —isto é, mesmo se a peça for lavada ou sofrer atrito, a empresa diz que a proteção continua.

Já outras empresas brasileiras adotaram outra abordagem: em vez de alterar a composição do fio, dão nele um “banho” com um composto químico com materiais protetores.

O lado ruim? O uso e as lavagens vão diminuindo sua eficácia. Os diferentes fabricantes estimam que as propriedades durem entre 20 e 50 lavagens “caseiras” —o que deixa margem para incertezas. Calor extremo e atrito também podem desgastar o revestimento. Por isso, produtos com o banho químico não devem ser limpos em lavanderias (máquinas industriais) ou com água quente..

Protege, mas não é escudo

Um laboratório independente avaliou o material da Rhodia, recebendo as certificações internacionais ISO 18184 (antiviral) e AATCC100 (antibacteriano). O problema na questão de covid é que as análises não usaram o Sars-CoV-2, e sim outros vírus semelhantes. Um teste com o novo coronavírus só pode ser realizado em laboratórios de risco biológico 3 —e há pouquíssimos deles no mundo.

“Ter um ISO, por exemplo, não é garantia do funcionamento da tecnologia antiviral. Essas certificações atestam procedimentos de fabricação, e não do uso. O processo pode ser ótimo e o produto ruim. Uma máscara com costura no meio, por exemplo, perde 40% da eficácia”, diz Paulo Artaxo, pesquisador do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP).

Artaxo acredita que esses tecidos são uma boa iniciativa, tanto para a população como do ponto de vista científico. Mas o fato de a própria indústria dizer que funciona não é suficiente, pois teriam de ser testados de modo independente.

Esses tecidos não receberam certificação da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) porque ela é necessária apenas no caso de itens para uso médico e hospitalar produzidos com os tecidos. Assim, produtos de uso casual são liberados.

Se você estiver usando uma blusa com o fio da Rhodia e, por exemplo, encostar o braço em uma superfície contaminada, o vírus é inativado. Mas não é um tecido ativo, em que você pode esfregá-lo em uma mesa para higienizá-la completamente. Afinal, ele não foi pensado como um produto de limpeza —como, por exemplo, um líquido que entraria em todas as frestas e porosidades das superfícies.

“É uma proteção extra para a sociedade neste momento de retomada. Também não é um escudo, você não vai virar super-homem se usar uma roupa antiviral”, admite Renato Boaventura, vice-presidente de poliamida e fibras da Rhodia Brasil.

Falsa segurança

A contaminação cruzada, por meio de um objeto ou superfície, é uma possibilidade secundária de transmissão da covid-19. Apesar de algumas pesquisas terem delimitado períodos para materiais como plástico e metal inoxidável, não há uma conclusão unânime de por quanto tempo o vírus consegue permanecer ativo em superfícies têxteis.

As vias principais são a inalação de gotículas de fluidos, provenientes de espirros e tosses, e o contato de mãos contaminadas com a boca, nariz ou olhos. As roupas e revestimentos especiais fazem parte de um conjunto de esforços, mas não substituem os cuidados recomendados pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como lavagem frequente das mãos e isolamento social.

“O maior problema é que pode haver uma falsa sensação de segurança”, acredita Alexandre Naime Barbosa, infectologista da Unesp (Universidade Estadual Paulista). “O tema de tecidos é interessante, mas tem pouco impacto na transmissão, que é principalmente aérea, e não por contato. Ainda que possam ser úteis, não são o foco. Temo que eles acabem tendo um efeito distrator, como uma cortina de fumaça, tirando a atenção do que mais importa.”

Barbosa pensa que as máscaras antivirais são os produtos que fazem mais sentido, dentro do novo normal. “Vamos ter de conviver esse vírus por muito tempo, por um ano, dois anos, até surgir uma vacina ou que ele pare de circular. Então temos de reduzir os danos, mudar de hábitos. As máscaras realmente nos protegem das gotículas, devemos sempre usar. Se ela tiver proteção, melhor.”

Aceitação no mercado Comercialmente pelo menos, as soluções estão rendendo. A Lupo foi a primeira empresa a colocar no mercado um produto com o Amni Virus-Bac OFF: um kit com duas máscaras sem costura, adultas ou infantis, por R$ 17,90. Segundo a empresa, entre abril e junho foram vendidas mais de 2 milhões de máscaras (1,1 milhão de kits) pela internet.

Outras marcas que adotaram a solução da Rhodia são:

BeCauz: oferece kit com uma camiseta manga longa e uma máscara (R$ 229, masculino ou feminino). Também há luvas (R$ 99), máscara infantil (R$ 29,90), blusa com gorro (R$ 239 infantil e R$ 269 adulto), segunda pele (R$ 259) e polo (R$ 269);

Feline: a marca de moda praia criou bodies (R$ 280) e máscaras (R$ 20);

Outras marcas que estão produzindo peças com o fio da Rhodia são: Track&Field (moda esportiva), Kanxa (esportiva) e DeMillus (íntima).

A desvantagem é que, para manter a eficácia, o tecido precisa conter pelo menos 90% da poliamida especial e até 10% de elastano, o que limita as possibilidades do mundo da moda. Ainda assim, o fio está sendo exportado para países da Europa e da Ásia, e, em breve, deve chegar aos Estados Unidos.

Já outras empresas têm comercializado roupas antivirais com um “banho” com um composto químico, que pode ser pó, líquido ou resina.

Alguns exemplos:

Vicunha: sua nova coleção jeans traz uma resina da empresa suíça CHT, chamada HeiQ Viroblock, que combina sais de prata e vesículas lipossomais (princípio usado na produção de remédios contra o câncer, que aqui tem a função de destruir o capsídeo do vírus).

Malwee: usa a mesma solução da Vicunha em camisetas (R$ 49,99 adulto; R$ 39,99 infantil) e kits com duas máscaras (R$ 29,99 adulto; R$ 24,99 infantil). Segundo a HeiQ, a proteção é mantida por, pelo menos, 30 lavagens na máquina e suporta até 40°C na hora de passar.

Um composto parecido, com dois tipos de nanopartículas de prata que “oxidam” o vírus, foi desenvolvido pela startup brasileira Nanox, de São Carlos (SP), ligada à Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Ele já está sendo usado pela Santista Têxtil em tecidos de sarja e jeans.

Chroma-Líquido Tecidos está produzindo capas antivirais para bancos de ônibus

Mais que roupas

As tecnologias antivirais estão sendo pensadas para além do vestuário. Há projetos para aplicação desses tecidos nos setores de transporte e de varejo, ambientes com grande risco de contaminação.

A Chroma-Líquido Tecidos está produzindo capas antivirais para bancos usando o fio da Rhodia, que já estão sendo usadas em ônibus e vans particulares;

A companhia também montou um protótipo de um ônibus para o sistema de transporte público de São Paulo, em parceria com a empresa de veículos Caio. Além dos assentos, foram forradas todas as barras de apoio e o balcão do cobrador com o produto;

O protótipo está sendo testado pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) a pedido do Governo do Estado. A ideia é expandir o projeto para o metrô e os trens da Grande São Paulo;

Os testes não permitem avaliação específica do Sars-CoV-2, pois o instituto possui um laboratório nível 2 –mas usam um coronavírus canino, de comportamento similar;

A Chroma-Líquido também tem projetos para revestir aeroportos, supermercados, restaurantes, fábricas, shoppings e igrejas com os tecidos antivirais.

“Fazemos coletas de amostras das superfícies, antes e depois da circulação de pessoas, e depositamos em placas com meio de cultura para bactérias e fungos. Em laboratório, observamos por dias o desenvolvimento dos microrganismos. É um teste longo, para um laudo isento”, conta Patricia Leo, pesquisadora do Laboratório de Biotecnologia Industrial do IPT.

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